O QUE É RPG:

Ah, a pergunta que não quer calar!

Bem, é difícil definir RPG com poucas palavras. Para falar a verdade, é difícil definir RPG até mesmo em muitas palavras, embora possamos tentar isso...

RPG vem do inglês "Role-Playing Game" (Jogo de Interpretação de Papéis). O RPG é um "jogo" aonde cada um dos jogadores assume o papel de um personagem qualquer, dependendo do tipo de jogo escolhido. Um personagem de RPG pode ser um bárbaro com um machado e uma tanga de pele, um garboso mosqueteiro capa-e-espada, um samurai com uma espada afiada e um ar sábio, um elfo armado de arco e flecha, um guerreiro futurista com cyber-braços prontos para a ação, ou qualquer outra coisa que ele imagine ser!

Apesar de dizermos que RPG é um jogo, na verdade não podemos considerar RPG um jogo, já que não existe um "vencedor". Na verdade, o grande objetivo do RPG é contar uma história. Uma história na qual cada personagem (e com isso, seu jogador) possui uma participação importante: o guerreiro elimina perigos, o ladrão desarma armadilhas, o hacker busca informações para o grupo, o mago utiliza-se de seus poderes em favor do grupo, etc...

Para isso, todo RPG possui um "jogador" em especial, o Mestre de Jogo (o termo pode variar de jogo para jogo), que propõem aos jogadores um desafio qualquer, que pode ir desde o tradicional tema medieval "entrar na masmorra/matar o dragão/pegar o tesouro" até a tramas complexas envolvendo toda a humanidade. Guardada as proporções, podemos dizer que o Mestre é como o autor de um livro: dentro do jogo, ele tem poder sobre todas as coisas. Ele pode determinar que guardas vigiam a torre que os personagens têm que invadir, que magos das trevas querem conjurar um deus-monstro, etc...

Um pouco complicado, não?

Bem, a idéia é a seguinte: já brincou de casinha, "polícia e ladrão", "cowboy e índios" ou outras brincadeiras do tipo "vamos ser os <preencha aqui com seu super-herói/série/anime/mangá/o que seja preferido>?" Claro que já! Isso é inerente ao ser humano: contar histórias é uma tradição que vem desde a época dos homens das cavernas, aonde os caçadores contavam e simulavam as caçadas, de forma a melhorarem a sua habilidade de caça antes da mesma (afinal de contas, um caçador ruim invariavelmente virava caça!!)

O RPG é como brincar de "Polícia e Ladrão": os jogadores procuram contar uma história e resolver os problemas propostos pelo Mestre, seja pegar um ladrão, seja consertar uma espaçonave com problemas.

"E porque precisa-se de todos aqueles livros, dados e folhas?", você deve estar perguntando.

É que em RPG, diferentemente do "Polícia e Ladrão", existem REGRAS que determinam o que você é capaz ou não de fazer. Essas regras determinam como você vai criar o personagem, como escolher quais coisas ele pode ou não fazer, que equipamento ele terá à mão no começo do jogo, se ele possui alguma coisa que o prejudica, etc... Também determina como tais capacidades serão testadas, através de dados (ou cartas de baralho, Jan-ken-pô, moedas ou qualquer outro tipo de teste).

Isso visa duas coisas:

  1. Impedir que ocorram discussões do tipo "Bang! Te matei, tira!", "Não matou não! Eu me escondi atrás do muro!", "Te acertei quando saiu de trás do muro!", "Mas estou com um colete à prova de balas!". Isso não ocorre porque, na ficha do personagem (as folhas estranhas), estão registradas todas as capacidades, posses, forças e fraquezas do personagem. Então, no exemplo anterior, se o policial tem realmente um colete à prova de balas, a ficha do personagem irá apresentá-lo, e irá também dizer o quanto ele pode proteger o personagem de uma bala. Da mesma forma, na ficha do bandido estará apresentada a habilidade que o bandido possui com um revólver, e o Mestre pedirá que o jogador verifique, através de um teste, se ele foi bem sucedido com o tiro.
  2. Impedir o personagem "super-humano", ou seja, o personagem que "pode tudo": um jogador que crie personagem do tipo "pode tudo" acaba tolhendo a diversão dos demais jogadores. O correto é um grupo equilibrado, aonde cada componente ajude os demais de um jeito.

    Usemos como exemplo a "configuração básica" medieval: um guerreiro, um mago, um clérigo e um ladrão:

Um grupo apenas com um tipo de personagem pode ser bem-sucedido em missões, mas isso pode provar-se difícil (como vencer um dragão sem magia?). Por isso, é importante que o grupo seja composto por personagens com múltiplas habilidades e poderes: um pode ser mais combativo, o outro ter melhores contatos, um terceiro dispor de recursos para financiar melhores equipamentos, etc...

"Interessante! Mas como eu posso jogar RPG? O que eu preciso?", você deve se perguntar.

Bem, inicialmente precisa ter um módulo básico de RPG. Os módulos básicos descrevem as regras principais do jogo, e muitas vezes trazem alguma informação sobre cenário. Normalmente em um módulo básico de RPG você encontra regras para a criação dos personagens, testes de perícia, combate e desenvolvimento do personagem, além de regras específicas para o cenário (como magia, psiquismo, divindades, armamento pesado, etc...).

O módulo básico também diz o que mais você vai precisar. Normalmente só é necessário mais alguns dados (algumas vezes multifacetados, comprados em lojas especializadas em jogos, outras vezes dados comuns de 6 lados, daqueles usados para jogar Banco Imobiliário ou War) e cópias da ficha (ou planilha) de personagem (que vem junto com o módulo básico do RPG, e que deve ser xerocado para isso). Alguns podem mudar isso, trocando os dados por cartas de baralho, ou usando um caderno ao invés de uma planilha para anotar-se as informações do personagem.

Existem vários módulos básicos para diferentes RPGs. Alguns são mais realistas, enquanto outros são mais cinemáticos (ou sejam, mais próximos do estilo cinema). Alguns são mais simples, outros mais complexos. Alguns são mais baratos, outros são muito caros. E existem até mesmo módulos básicos de RPG disponíveis via Internet para download gratuíto.

Depois de obter o módulo básico (que chamaremos de MB daqui em diante), leia-o até ter certeza de que o entendeu corretamente. Não tente ser perfeito de cara: aprenda com os erros e com a experiência. Se o MB trazer um cenário, leia-o e entenda-o. Isso facilitará mestrar as aventuras.

Reuna alguns amigos (pelo menos mais um, embora três a seis seja uma quantia boa para partidas mais animadas e excitantes) e explique a eles como criar personagens. Ou melhor: caso sejam iniciantes, dê-lhes personagens prontos, explicando como eles são (muitos RPGs incluem alguns deles). Elabore uma aventura (ou use uma que tenha sido fornecida com o MB) e comece a rolá-la. Aos poucos, você irá perdendo a inibição: imite a voz dos NPCs (os personagens não jogadores: o resto do mundo de jogo), crie "efeitos especiais" (bata os pés no chão para simular o barulho de uma avalanche), e por aí afora. Com o tempo, você verá que RPG não é bicho de sete cabeças.

"Legal... Parece ser interessante. Mas quais cenários são os mais vistos em RPG?"

Bem, existem diversos tipos de cenário de RPG. Basicamente, qualquer filme, livro, seriado ou desenho animado pode ser "vítima" de uma adaptação (ou seja, serem transformados em) para RPG (na verdade, muitos filmes e seriados de sucesso são adaptados, oficialmente ou não, para RPG).

Para facilitar, vamos discutir alguns cenários, classificando-os conforme o tipo, citando exemplos de filmes, séries e desenhos que se encaixem em cada tipo de cenário:

Existem muitos outros cenários possíveis para RPG. Na verdade, com RPG, apenas a imaginação é o limite.

"Legal... Mas e essa parte de magia? RPG é um culto?"

Não! RPG NÃO É um culto, e de forma nenhuma os RPGistas são favoráveis à prática de satanismo ou de magia negra (bem... ao menos não sua maioria, aqueles que mantem sua sanidade no lugar e paga seus impostos em dia). A presença da magia em RPG, apesar dos que dizem aqueles que detratam o RPG, é apenas em AMBIENTE DE JOGO.

É importante agora diferenciar as coisas. Um jogador de RPG pode jogar com qualquer personagem: um "nerd" tímido pode fazer um espadachim ousado, um machão de academia pode participar como uma espiã voluptuosa, etc... Não existe limite ao que cada jogador pode ser dentro de um RPG.

Além disso, qualquer coisa (QUALQUER MESMO) que aconteça em jogo acontece com o PERSONAGEM, não com o JOGADOR. Se o Mestre diz "Você foi estuprada", não é a JOGADORA (ou jogador) que é estuprada, mas sim A PERSONAGEM. Um personagem morto é apenas uma folha de papel: não é o jogador que morre! É como em um videogame: quando o lutador morre, o jogador que está no controle não morre junto! Ele apenas tem que apertar o START do controle de novo. O mesmo vale em RPG: um personagem morto obriga ao jogador criar uma outra ficha, nem que seja apenas uma cópia da antiga com outro nome!

OK, explicado isso, voltemos ao assunto magia:

A presença da magia em RPG é muito grande porque muitos cenários de RPG possuem magia de forma marcante, seja pela presença poderosa e imprenscindível (como em cenários no estilo Earthsea, Whell of Time e Brumas de Avalon), discreta e/ou cotidiana (como no caso de Senhor dos Anéis e Harry Potter), ou misteriosa e sombria (como no seriado Arquivo X e nos livros de H.P. Lovecraft). Muitos RPGs inclusive lidam com a magia em cenários atuais, como aqueles de Harry Potter, Arquivo X ou os baseados nos gibis do estilo Spawn, Witchblade, Hellblazer ou Livros de Magia.

É importante notar que, embora alguns RPGs utilizem livros considerados de magia para pesquisa, como o Livro de São Cipriano ou a Chave de Salomão, em MOMENTO ALGUM a magia em RPG funciona fora de jogo. Não tente fazer nada disso fora do RPG!

Senão, quero ver você fazer alguma magia preso por camisas-de-força!

"Ah, entendi... Quanto a divindades? Preciso mudar de religião para jogar RPG?"

Definitivamente NÃO!

Lembre-se: você NÃO É o seu personagem! Você apenas O INTERPRETA! Você pode ser evangélico e jogar com um monge Shaolin budista, ou então ser um católico e jogar com um bruxo de Harry Potter!

Muitas pessoas se perguntam porque muitos cenários de RPG tendem ao "paganismo". Isso porque eles se baseam (principalmente os de Fantasia Medieval) na Idade Média, aonde era muito freqüente tal paganismo. Você pode escolher qualquer cenário para jogar RPG, inclusive cenários baseados em livros religiosos: seus jogadores podem ser cristãos perseguidos pelo governo romano, judeus organizando uma resistência contra o Faraó, espiões mandados por Moisés para Canaã, ou até mesmo pagãos que começam a aceitar as palavras de Cristo!

Lembre-se: não existe limite para o que se pode fazer em RPG. Apenas a sua imaginação... e seus preconceitos.

"E quanto aos encontros de RPG? O que são?"

Encontros de RPG são como encontros de qualquer outro tipo de apreciador de qualquer coisa. De forma semelhante a eventos de Rock, os jogadores de RPG vão aos encontros para encontrarem semelhantes e se divertirem juntos. De forma semelhante aos que vão nos eventos de informática, os jogadores de RPG vão em eventos para saberem das novidades.

Encontros de RPG costumam ser um lugar excelente para aprender-se a jogar, pois normalmente possuem mesas para iniciantes, pessoas que nunca jogaram RPG anteriormente. Da mesma forma, também fica mais fácil e barato comprar-se livros básicos, suplementos (livros com regras adicionais, cenários, aventuras, etc...), pois normalmente os eventos possuem estandes de lojas e editoras que vendem tudo relacionado a RPGs: livros, dados, escudos (painéis de cartolina com informações para o Mestre), etc...

Os Encontros, em geral, também possuem leilão de RPGs usados, aonde podem ser adquiridos RPGs a baixo custo e encontrado raridades. Nos Encontros também são exibidos filmes e desenhos com teor RPGístico, concursos de fantasias são realizados, palestras... enfim, é um evento social tão importante quanto qualquer outro.

"Ah! Então RPGista não é maluco!"

Claro que não! Os RPGistas são pessoas como todas as outras.

Não há porque temer os RPGistas. Eles são pessoas como todas as outras, que pagam seus impostos, gostam de boa música, etc...

Bem, pelo menos enquanto não mistura-se drogas e álcool no meio de tudo.

 

Fábio Emilio Costa

Jogador de RPG, Monitor-Chefe, 6° Ano da Lufa-Lufa